Os paulistanos vão às urnas hoje para decidir entre o prefeito Gilberto Kassab (DEM), apoiado pelo governador José Serra (PSDB), e a ex-prefeita Marta Suplicy (PT), que tem o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para decidir quem será o administrador da maior cidade brasileira a partir de 2009. O resultado da disputa deste domingo deve também influir na sucessão presidencial de 2010, que tem como seu principal candidato justamente José Serra.
Confirmada sua reeleição, como apontam as pesquisas, Kassab vai consultar Serra para discutir a montagem do secretariado para o segundo mandato. A intenção - afirmou Kassab a interlocutores - seria de uma composição conjunta, incluindo mudanças no Governo, como a "promoção" de Andrea Matarazzo para o Estado.
O quebra-cabeça não será fácil para Kassab: mal acabou a eleição, seus aliados já se lançam numa disputa por cargos na Prefeitura. Ao longo da campanha, ele repetiu que manterá os tucanos na administração. O aceno, porém, é incompatível com os compromissos acertados com PR, PMDB, PV e PSC. Juntos, esses partidos reivindicam sete secretarias.
Além de comandar a principal cidade do País, Kassab trabalhará para a eleição de uma bancada sua e para sua consolidação como líder nacional do DEM, caso seja reeleito. Segundo interlocutores dele, a idéia é assumir o comando do DEM para atuar como articulador político da candidatura do governador José Serra (PSDB) à Presidência. Ele se empenhará pela candidatura de um aliado para o governo do Estado. Kassab, dizem democratas, dificilmente apoiará Geraldo Alckmin (PSDB) em 2010.
MARTA
A rival de Kassab enfrenta desafios e toma decisões com o mesmo olhar questionador da psicóloga em início de carreira que não concordava em medir o Q.I. das crianças de periferia com os testes das classes média e alta. Suas propostas de inovação levaram polêmica à Prefeitura. Com poder estrogênico, quando prefeita, lutou contra a máfia dos transportes, criou escolas com orquestras sinfônicas para a periferia e o plantio de coqueiros para embelezar a cidade, que levaram a prefeita a um bate-boca com uma eleitora em frente às câmeras de TV.
A espontaneidade característica rende frases de efeito e deixa assessores desconfortáveis na cadeira, sempre à espera de comentários bombásticos. O mais famoso foi também o mais amargo: "Relaxa e goza", respondeu ela ao ser perguntada sobre qual conselho daria aos passageiros que enfrentavam atrasos na crise aérea, em 2007.
De uma educação conservadora, à qual tem fortes críticas, Marta percorreu um longo caminho para se estabelecer como uma liderança dentro do PT. Mas não conseguiu driblar a rejeição, explicada muitas vezes como preconceito. Talvez menos o de ser mulher e mais o de dizer o que pensa. "Mulher que fala o que pensa é temperamental", diz.
NO RIO
Um Rio de Janeiro rachado - entre eleitores de classe média mais escolarizados e votantes pobres com pouco estudo - escolhe hoje entre Fernando Gabeira (PV) e Eduardo Paes (PMDB) quem será seu novo prefeito. Na disputa mais apertada desde o restabelecimento da eleição direta, em 1985, os dois chegam às urnas em empate técnico, embora com ligeira vantagem para Paes em algumas pesquisas - ainda assim, na margem de erro. O confronto também opõe a base do governo federal, que apóia o peemedebista, e a oposição do PSDB e do DEM, que sustentam a candidatura do verde, visando à sucessão presidencial de 2010.
A divisão social e política se refletiu nos programas de TV e rádio. Gabeira encheu seu horário na TV de artistas, como Caetano Veloso, Fernanda Abreu, Frejat e Paulinho Moska, além de imagens bonitas, com muito sol e pessoas sorridentes.
A essa linguagem, Paes contrapôs um trabalho com imagens menos iluminadas da zona oeste, região mais pobre da cidade, onde o adversário se saiu pior. Apresentou uma lógica "realista".